Domingo, Março 25, 2012

Flora de cinema

Flor despetalada, pura
essência do anoitecer
doce percepção do prazer
sobre a face escura.

Forma talhada, escultura
desnuda, forma do se ter
desejo a tua ternura
quero te percorrer.

Sonhar-te não definida,
preciso te ter real
com a alma consumida,

Tocar-te com a volúpia
atar-te ao meu mal
sem ordem, sem conduta.

Segunda-feira, Janeiro 09, 2012

O que não aceito

Eu não me dou com:
as regras que só se aplicam a mim;
adestramento;
anulação;
superioridade
e moda

Sábado, Novembro 19, 2011

Olhar distante de antes

Tenho a sua idade,
descalço na rua de minha criança eu creio que crio.
Meu pai me olha de longe,
de longe a porta aberta e as janelas abertas e seus olhos abertos,
os olhos de meu pai,
de meu pai que está longe e seus olhos estão tão perto da minha volta
em tudo que envolve em minha criança.
Minha mãe chega mais perto e me traz pela mão:
"cresce pequeno, não há que faça dessas coisas de inventar imaginações."
Invento.
Não entendo muito dessas adultezas,
tenho sua idade...
acho que passos tenho tantos,
só que olhos,
aprendi,
não podem envelhecer!

Sexta-feira, Novembro 04, 2011

Trecho de um fim

Que me ouvisse sem desdém: uma palavra solta
ou no varal sem pregador
e eu não me importaria em ter alma
para entregar o corpo, meu corpo.
E que, então, me tocasse sem pedir o toque,
sem cobrar aquilo mesmo que não pode oferecer,
que considerasse alguém além do reflexo,
que vivesse a plena satisfação da vida
num sorriso pequenino,
de mãos pequeninas e dadas...
dadas à ternura humana!

Domingo, Setembro 25, 2011

Crônica de um enigma

Antes que lhe digam
que o mundo de bandeiras
que a ideia frontiada
são delírios de engajamento...
Pense nas bandeiras vermelhas,
no sentido do pensamento democrático, 
na revolução dos bichos e seus porcos,
na defesa das posições laterais.
Todo partido é um fragmento reacionário,
cada qual com seu motivo para o poder
e um discurso popular eleitoral:
se me decifras eu te devoro!

Segunda-feira, Agosto 08, 2011

Mudinho

Chamavam-no: Mudinho!
o homem que flutuava
em silêncio
de palavras
e sorria, dado ao caminho,
à força de seus murmúrios...


Chamavam-no: Mudinho!
o homem que acenava
em silêncio
de gestos
e sorria, posto ao destino,
à paciência de cada passo...


Chamavam-no
(?)
os surdos:
o homem que sorria
em silêncio
de lábios
e falava do amor,
dessas nuvens,
com seus olhos...

... mas todos eram cegos!

Quarta-feira, Maio 04, 2011

diálogo com Leminski

Quando escrevo o espanto exponho,

ponho o dedo na ferida,

torno a palavra uma mira

e a ideia sobre o texto aponto.



...



Quando escrevo suponho e credito

tudo que pode, em mim, ser novo.

Pego qualquer credo e pronto:

se não tiver motivo eu crio!

Sábado, Abril 16, 2011

Homenagem a Chaplin

Canto ao homem do Povo - Charles Chaplin


I

Era preciso que um poeta brasileiro,
não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,
girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver
como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,
era preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior
onde nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente polidos
e a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,
era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,
preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,
viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse
para dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.
Para dizer-te como os brasileiros te amam
e que nisso, como em tudo mais, nossa gente se parece
com qualquer gente do mundo - inclusive os pequenos judeus
de bengalinha e chapéu-coco, sapatos compridos, olhos melancólicos,
vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem
nos filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,
e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor
como um segredo dito no ouvido de um homem do povo caído na rua.
Bem sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece,
e costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua,
e entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas,
só as mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram.
Não é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço,
eles não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum,
nem faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti
como um ramo de flores absurdas mando por via postal ao inventor dos jardins.
Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.
Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os parias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irresponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.
E falam as flores que tanto amas quando pisadas,
falam os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,
os instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,
cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam.
II

A noite banha tua roupa.
Mal a disfarças no colete mosqueado,
no gelado peitilho de baile,
de um impossível baile sem orquídeas.
És condenado ao negro. Tuas calças
confundem-se com a treva. Teus sapatos
inchados, no escuro do beco,
são cogumelos noturnos. A quase cartola,
sol negro, cobre tudo isto, sem raios.
Assim, noturno cidadão de uma república
enlutada, surges a nossos olhos
pessimistas, que te inspecionam e meditam:
Eis o tenebroso, o viúvo, o inconsolado,
o corvo, o nunca-mais, o chegado muito tarde
a um mundo muito velho.
E a lua pousa
em teu rosto. Branco, de morte caiado,
que sepulcros evoca mas que hastes
submarinas e álgidas e espelhos
e lírios que o tirano decepou, e faces
amortalhadas em farinha. O bigode
negro cresce em ti como um aviso
e logo se interrompe. É negro, curto,
espesso. O rosto branco, de lunar matéria,
face cortada em lençol, risco na parede,
caderno de infância, apenas imagem
entretanto os olhos são profundos e a boca vem de longe,
sozinha, experiente, calada vem a boca
sorrir, aurora, para todos.
E já não sentimos a noite,
e a morte nos evita, e diminuímos
como se ao contato de tua bengala mágica voltássemos
ao país secreto onde dormem os meninos.
Já não é o escritório e mil fichas,
nem a garagem, a universidade, o alarme,
é realmente a rua abolida, lojas repletas,
e vamos contigo arrebentar vidraças,
e vamos jogar o guarda no chão,
e na pessoa humana vamos redescobrir
aquele lugar - cuidado! - que atrai os pontapés: sentenças
de uma justiça não oficial.
III

Cheio de sugestões alimentícias, matas a fome
dos que não foram chamados à ceia celeste
ou industrial. Há ossos, há pudins
de gelatina e cereja e chocolate e nuvens
nas dobras do teu casaco. Estão guardados
para uma criança ou um cão. Pois bem conheces
a importância da comida, o gosto da carne,
o cheiro da sopa, a maciez amarela da batata,
e sabes a arte sutil de transformar em macarrão
o humilde cordão de teus sapatos.
Mais uma vez jantaste: a vida é boa.
Cabe um cigarro: e o tiras
da lata de sardinhas.
Não há muitos jantares no mundo, já sabias,
e os mais belos frangos
são protegidos em pratos chineses por vidros espessos.
Há sempre o vidro, e não se quebra,
há o aço, o amianto, a lei,
há milícias inteiras protegendo o frango,
e há uma fome que vem do Canadá, um vento,
uma voz glacial, um sopro de inverno, uma folha
baila indecisa e pousa em teu ombro: mensagem pálida
que mal decifras
o cristal infrangível. Entre a mão e a fome,
os valos da lei, as léguas. Então te transformas
tu mesmo no grande frango assado que flutua
sobre todas as fomes, no ar; frango de ouro
e chama, comida geral, que tarda.
IV

O próprio ano novo tarda. E com ele as amadas.
No festim solitário teus dons se aguçam.
És espiritual e dançarino e fluido,
mas ninguém virá aqui saber como amas
com fervor de diamante e delicadeza de alva,
como, por tua mão a cabana se faz lua.
Mundo de neve e sal, de gramofones roucos
urrando longe o gozo de que não participas.
Mundo fechado, que aprisiona as amadas
e todo o desejo, na noite, de comunicação.
Teu palácio se esvai, lambe-te o sono,
ninguém te quis, todos possuem,
tudo buscaste dar, não te tomaram.
Então encaminhas no gelo e rondas o grito.
Mas não tens gula de festa, nem orgulho
nem ferida nem raiva nem malícia.
És o próprio ano-bom, que te deténs. A casa passa
correndo, os copos voam,
os corpos saltam rápido, as amadas
te procuram na noite... e não te vêem,
tu pequeno, tu simples, tu qualquer.
Ser tão sozinho em meio a tantos ombros,
andar aos mil num corpo só, franzino,
e ter braços enormes sobre as casas,
ter um pé em Guerrero e outro no Texas,
falar assim a chinês a maranhense,
a russo, a negro: ser um só, de todos,
sem palavra, sem filtro,
sem opala:
há uma cidade em ti, que não sabemos.
V

Uma cega te ama. Os olhos abrem-se.
Não, não te ama. Um rico, em álcool,
é teu amigo e lúcido repele
tua riqueza. A confusão é nossa, que esquecemos
o que há de água, de sopro e de inocência
no fundo de cada um de nós, terrestres. Mas, ó mitos
que cultuamos, falsos: flores pardas,
anjos desleais, cofres redondos, arquejos
poéticos acadêmicos; convenções
do branco, azul e roxo; maquinismos,
telegramas em série, e fábricas e fábricas
e fábricas de lâmpadas, proibições, auroras.
Ficaste apenas um operário
comandado pela voz colérica do megafone.
És parafuso, gesto, esgar.
Recolho teus pedaços: ainda vibram,
lagarto mutilado.
Colo teus pedaços. Unidade
estranha é a tua, em mundo assim pulverizado.
E nós, que a cada passo nos cobrimos
e nos despimos e nos mascaramos,
mal retemos em ti o mesmo homem,
aprendiz
bombeiro
caixeiro
doceiro
emigrante
forçado
maquinista
noivo
patinador
soldado
músico
peregrino
artista de circo
marquês
marinheiro
carregador de piano
apenas sempre entretanto tu mesmo,
o que não está de acordo e é meigo,
o incapaz de propriedade, o pé
errante, a estrada
fugindo, o amigo
que desejaríamos reter
na chuva, no espelho, na memória
e todavia perdemos
VI

Já não penso em ti. Penso no ofício
a que te entregas. Estranho relojoeiro
cheiras a peça desmontada: as molas unem-se,
o tempo anda. És vidraceiro.
Varres a rua. Não importa
que o desejo de partir te roa; e a esquina
faça de ti outro homem; e a lógica
te afaste de seus frios privilégios.
Há o trabalho em ti, mas caprichoso,
mas benigno,
e dele surgem artes não burguesas,
produtos de ar e lágrimas, indumentos
que nos dão asa ou pétalas, e trens
e navios sem aço, onde os amigos
fazendo roda viajam pelo tempo,
livros se animam, quadros se conversam,
e tudo libertado se resolve
numa efusão de amor sem paga, e riso, e sol.
O ofício é o ofício
que assim te põe no meio de nós todos,
vagabundo entre dois horários; mão sabida
no bater, no cortar, no fiar, no rebocar,
o pé insiste em levar-te pelo mundo,
a mão pega a ferramenta: é uma navalha,
e ao compasso de Brahms fazes a barba
neste salão desmemoriado no centro do mundo oprimido
onde ao fim de tanto silêncio e oco te recobramos.
Foi bom que te calasses.
Meditavas na sombra das chaves,
das correntes, das roupas riscadas, das cercas de arame,
juntavas palavras duras, pedras, cimento, bombas, invectivas,
anotavas com lápis secreto a morte de mil, a boca sangrenta
de mil, os braços cruzados de mil.
E nada dizias. E um bolo, um engulho
formando-se. E as palavras subindo.
Ó palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo.
Poder da voz humana inventando novos vocábulos e dando sopros exaustos.
Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo,
crispação do ser humano, árvore irritada,
contra a miséria e a fúria dos ditadores,
ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode
caminham numa estrada de pó e de esperança.



Carlos Drummond de Andrade do livro Rosa do Povo

Quarta-feira, Janeiro 26, 2011

conselhos para meu ego

Se você não se conhece,
creia no destino!
Vá sempre nalgum cume
se abandonar ao vento!


Tente entre tempestades
não fazer muito movimento!
Não se irrite
com o improviso!
Não grite com estranhos,
tão pouco com amigos!



Não deixe de dormir
por nada que se perde!
Não faça de seu tempo
uma repetição mórbida!
Agradeça!

Quinta-feira, Dezembro 30, 2010

pequena crônica poética

O caminho de casa,
pela orla da lagoa,
as sandálias de borracha,
um olhar que não tem destino,
passo a passo vou embora,
pelo passeio molhado e vez ou outra
atravesso as ruas molhadas
que sempre me atravessam desde a infância.
Passo pelo prédio do Iporanga,
olho mais a frente
( Saulo deve estar trabalhando!)
É um Coutinho, deveras é um Coutinho,
só não me lembro o nome dele,
pergunto a ele sobre música,
se ainda canta, se ainda toca violão,
pergunto por Zander, falo do tempo,
(essa chuva que não cessa)
desejo um feliz 2011
que talvez nem seja um ano feliz.
Sigo conversando sozinho,
de cabeça baixa,
uma de minhas sandálias arrebenta,
uso do improviso para seguir,
Um palhaço de cara borrada me diz boa tarde:
- Boa tarde!
Eu respondo: eeei!
Ele sorri e se vai.
Eu me vou também até em casa
sem maiores incidentes
e penso:
apesar da sandália perdida, fiz um palhaço sorrir
e fiquei feliz! Feliz pelo caminho!
Feliz por poder sorrir!

Sábado, Outubro 09, 2010

a palavra tempo, a coisa homem!

O poeta me disse, certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar. A palavra tempo traz a espera do homem de que se há de servir para o presente. A presente é outra que não se ilumina de um só movimento, mas desfaz amarras e anuncia os passos do dia.

Os passos indicam que o corpo segue, segue uma linha tênue entre o caminho e as indicações provisórias da escolha.

O desvio também é uma escolha, um improviso da reta, registra a mudança de lado, o olhar de outra maneira. Seguir o desvio é um risco que nos atrevemos, o improviso que tememos deter certo cálculo.


Há certas provocações que limitam as contravenções do caminho. Nem todos desafiam os muros que cercam o horizonte, muitos os tem como um costume imperativo e necessário, outros os desejam como um sentido abstrato de resistência ao tempo.

O tempo... O tempo do homem e seus ponteiros não obedecem ao pulsar do corpo.

Não é o tempo das coisas, das árvores, das raízes, das folhas e flores e suas estações.

Guia-se pela dança solar de suas insinuações de claridade e sombrias confluências.

O tempo que me acusam merecer não se desvia de tantas estações, não se esfacela no silêncio das mãos.

Teimo as mãos que não cunham os caminhos, domam os como doma a terra entre os dedos, o homem.

O homem se compõe de naturezas, seus olhos permeiam as folhas e suas fotossínteses. O verde da relva desconstrói o cinza que o homem edifica.

O verde se desculpa da luz e a luz colore os dias. O sol, eu sei, desconhece esse murmúrio da arte.

Essa arte de umedecer os olhos, desabilitar as dores, secar os lábios, acelerar o pulso das coisas.

As coisas se confundem às paisagens que suspeitam. Estão dentro, ante, distante, amalgamadas em proporções ambíguas.

É assim que a vida se abre à vida. As janelas se abrem, as luzes se abrem, os livros se abrem, as literaturas se abrem, a palavra se abre e tudo mais se descobre entregue ao impossível.

O pensamento se abre no silêncio de uma lembrança, a imaginação permeia os sonhos e o corpo desliza sentimentos sem ou com poesia. O pensamento é uma poesia do improvável.

Presto minh’alma num movimento
Que está tão perto e está tão longe.
Nele um taciturno vazio se esconde
Que um dia ousei deitar ao vento.


As mãos se rendem à palavra como se se rendessem à terra. Dedilham com delicada ausência a extensão de sua textura. Arriscam maneiras de envolvê-la, imprimem com cuidado suas digitais.

O tempo é a paisagem do homem, é como um palco que espera o ator e sua emoção despida.

O tempo é a paisagem que repousa no homem e o homem repousa no tempo e o homem repousa o tempo, mas o tempo jamais adormece ao homem.

Só o olhar se encontra no invisível. Só o olhar torna o sentido palpável. Os olhos são as janelas do mundo. Só os olhos percebem o escuro do instante.

Nesse escuro tudo é essência e superficialidade. Para consenti-la descuidamos das estrelas e suas sombras a espera da manhã e suas iluminações.

A palavra tempo, à luz do dia, permeia cores altas, a escrita é coisa de contraste. É igual ao homem e os seus caminhos, sempre dispostos entre opostos.

A coisa homem abre as suas janelas às coisas outras e se desfaz em si mesmo para deslizar pelo feitiço de seus silêncios e de seus ruídos. Do tempo e do homem nasce o destino.


Quinta-feira, Setembro 16, 2010

política poética





Pois que meu verso
tem que ser maior
que os teus versos?
que o teu erário?

Serias e o teu universo
que colorem o meu imaginário?

Qual movimento surdo
darias aos meus olhos
de brincador de amor errante?
de insignificante operário?

Estarias e o teu inverso
manifestando delicados relicários?

permanecidos

Eu permaneço,
quando em tempestades
tudo é água!


Você permanece
quando em labaredas
tudo queima!


Eles permanecem
quando evitam
fogos e chuvas!



 



Terça-feira, Setembro 07, 2010

virações desses tempos

As partículas do universo teimam virações no verso,
a cerveja comum muda de cor,
novas canções adoçam as noites amargas,
um simples filme desequilibra o coração,
um velho poema se despe tão surprendente,
um par de óculos desentorta a visão,
o que era sim e agora é não,
até o amor ousa uma pirueta,
uma nova casa precisa novas cores,
aquele parque de antes se queima ante o ocaso,
os conceitos, os conceitos são tão mutáveis,
e já só estas coisas são sinceramente únicas de sentido:
teu sorriso num dia taciturno
e Theo sonhando desconhecimentos de água
molhando pequenas porções de amanhã!

Sábado, Agosto 28, 2010

imemorial

Não nos lembraremos da noite

em que o encontro fora breve:

há outro motivo na liberdade,

esquecer o que talvez esteja distante

de repousar silencioso

e vaga no espaço.



Não nos lembraremos do cansaço

que havia depois da trilha, na chegada:

há uma cidade aos pés doloridos,

sistemas ópticos coloridos

de iludir as sombras

do último trago de vinho.



Não nos lembraremos da velha redoma

que vestia roupas rotas e delgadas:

eis que o tempo descolore as fotografias

que sacamos de nós em cada curva

da estrada.



Não nos lembraremos do álbum desfeito,

do copo vazio, do canto calado, da madrugada

nos botecos: prolongando o encontro, a palavra.

Esqueceremos cada dia e em cada dia

esqueceremos-nos, esse dia esquecido como tantos

e seremos os possíveis amigos de outro tempo.



O tempo... esqueceremos o tempo, não lembraremos

se é que fomos ou estamos ou seremos...

palavra escorrendo, palavra lava

que queima, que brasa, que lavra

o corpo que é nada!

Entretanto a lua é cheia, a noite é fria, a taça está plena

e brindamos, brindamos, brindamos levemente

ao momento que somos:

inesperado!